Sábado, 20 de Junho de 2009

PASSEIO SOCRÁTICO

PASSEIO SOCRÁTICO


Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.

- "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos 'Manuscritos econômicos e filosóficos' (1844), ele constata que, "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens".

Portanto, em si o homem não tem valor para nós. "O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão."

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, têm alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.

Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas, não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."

E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo.

- "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo.

Olham-me intrigados.

Então explico: - "Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia:

- *"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".*

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Prédios inteligentes e econômicos

Arquitetos e engenheiros pensam em soluções que façam do edifício uma ferramenta para redução de consumo de água e energia.
Arquitetos e engenheiros têm um desafio a mais antes de fazer seus projetos: pensar em soluções que façam do edifício uma ferramenta para redução de consumo de água e energia, produção de lixo e até emissão de dióxido de carbono.Passar a imagem de “amiga do meio ambiente” já se transformou em algo comum nas empresas. Mesmo as que não têm programas de sustentabilidade tentam se mostrar ambientalmente corretas. Mas de que adianta colocar plantas ou reduzir a quantidade de papel gasto no escritório se o edifício em que ele está instalado contribui para o consumo desnecessário de recursos naturais? Por isso, qualquer tentativa de criar um ambiente de trabalho sustentável está diretamente ligada à edificação. O conceito das construções vai muito além das iniciativas mais conhecidas, como a geração de energia por meio de placas fotovoltaicas, popularmente chamadas de placas solares, e a reutilização de água da chuva. A visão global do impacto ambiental de um empreendimento, e sua drástica redução, requer planejamento, racionalização de todos os processos, utilização de materiais específicos e soluções que considerem o ambiente em torno do prédio.
Para Paola Figueiredo, geógrafa com certificação Leed (Leadership in Energy and Enviromental Design) e diretora do Grupo SustentaX, uma das mais importantes firmas de certificação no Brasil, o País ainda engatinha nesse setor. A quantidade de edifícios sustentáveis certificados seria de apenas uma centena. Mas, segundo ela, é preciso lembrar que a proliferação se deu apenas nos últimos três anos. “O valor absoluto é realmente muito pequeno, mas o crescimento é rápido e se deu em um curto período de tempo”. No mundo, existem cerca de duas mil “construções verdes”. Um dos motivos para a quantidade de empreendimentos sustentáveis ainda ser discreto é o custo. A agência-modelo do Banco Real, localizada em Cotia (SP) e primeira da América do Sul a receber o certificado Leed, custou 30% mais por metro quadrado do que outras agências. Mas a inexperiência e o aprendizado respondem por boa parte dessa diferença. “Fizemos inovações, testes e tivemos que refazer algumas coisas, o que significa custo mais alto que o normal”, explica Roberto Oranje, arquiteto da empresa.

Para ler o artigo completo, basta clicar neste link.


Maio 27, 2009 07:18 PM
Por Por Marina Pita
Da Revista Sustenta

Domingo, 31 de Maio de 2009

EU LEVO OU DEIXO?

Contam que certa vez Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou que havia um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e,
surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácroto! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga,e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência do que o vulgo denomina nada!!!!!!!
E o ladrão, confuso, respondeu:
- Doutor, eu levo ou deixo ospatos?
Fonte: Desconhecida

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

PEC do Calote: Bye, bye precatórios!!


É com indignação que observo a Proposta de Emenda à Constituição nº 12 que tenta premiar o mal gestor municipal em detrimento dos cidadãos que têm o direito de a receber precatórios dos governos.

Não me causa espécie o Senado da República ter aprovado a mencionada PEC (pela CCJ), pois aquela casa legislativa que, em tese, deveria defender o interesse dos cidadãos brasileiros, infelizmente, não cumpre sua função constitucional.

Desta feita, transcrevo o posicioamento da OAB, através do seu atual presidente, Cézar Britto que afirma que a proposta, caso aprovada, irá prejudicar o cidadão, que não terá mais esperança de ver seus direitos garantidos. Segundo ele, é um instrumento "autoritário", que premia os maus administradores. "É uma anomalia constitucional muito grande".

Penso que a nós cidadãos cabe expressar a nossa indignação, seja pela blogosfera, no conversa com o colega de trabalho, com o familiar, na fila do banco, com o fim de disseminar que a tentativa em menção é um golpe dos mais levianos perpetrado por "nossos próprios representantes".

É um clichê, mas preciso ser dito: É uma vergonha !!!

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

O "gatilheiro" Quintino



O Blog diz "viva!" ao curta-metragem sobre a vida e morte de Quintino.

A iniciativa é louvável haja vista que a verdade acerca da história do "gatilheiro" merece vir à tona de modo a demonstrar que o direito de resistência pode ser buscado em situações extremas.

Aproveitamos para solicitar àqueles que detenham documentos e informações acerca da vida e história de Quintino para que porcurem a antropóloga Cláudia Kauwage, co-diretor do curta, pois existe a idéia de fazer um longa-metragem sobre o mesmo ícone da revoluções camponesas no Brasil.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Infeliz data (17/04)

Há treze anos atrás aconteceu um dos maiores massacres cometido contra a classe trabalhadora no país.
Homens, mulheres e até crianças, em plena luta pelo direito a terra, tiveram seus destinos alterados drasticamente.
Após ordem superior (bom lembrar que à época o governador do Estado era o Sr. Almir Gabriel), soldados da polícia militar do Pará, em respeito a hierarquia atenderam a ordem que era desobstruir a estrada, mais exatamente na curva do "s" localizado no município de Eldorado do Carajás.
O triste é que até a presente data os verdadeiros mandantes não foram sequer processados.
Muitos poderão dizer que o MST é um agrupamento de marginais, afinal é esta a imagem massificada pela imprensa que está a serviço dos grandes latinfundiários, cujo exemplo recente podemos citar o Sr. Daniel Dantas, do Banco Opportunity.
Tudo bem tenho críticas aos métodos hoje empregos pelo MST e pela Via Campesina, mas o que aconteceu na curva do "s" é injustificável e configura-se numa página negra da história do Brasil.
Não posso deixar de reconhecer que existem muitos aproveitadores infriltrados nos movimentos populares em questão que, apesar de muitos, são minoria, sem dúvida, dentro do gigantesco número de pessoas que lutam por terra para trabalhar, criar seus filhos, em suma, viver . . .
A necessidade de uma efetiva reforma agrária em nosso país é maior e, portanto, supera todos os aspectos dos movimentos populares que lutam pela mesma.
A imprensa tenta criminalizar o movimento afirmando que existem muitas terras públicas que podem ser objeto de reforma agrária. Todavia, esquecem de dizer que grande parte dessas terras foram griladas pelos latifundiários que em grande parte apenas fazem especulação imobiliária com as mesmas.
O Brasil está em luto pelo crime contra humanidade cometido pelo Estado brasileiro contra cidadadãos brasileiros.


Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Acreditem se quiser!


Mas os paraenses tem a melhor praia do Brasil.
A escolha foi feita pelo mundialmente famoso jornal The Guardian do Reino Unido.
Abaixo traduzi comentário do correspondente no Brasil do The Guardian, Tom Philips.

1. Alter do Chão, Pará
A melhor praia do Brasil não está no Rio de Janeiro ou no nordeste de sol e mar. Não está na costa. Está em um rio no coração da floresta amazônica. Há 30km da cidade de Santarém, Alter-do-chão é a resposta da selva ao Caribe. Depois de uma semana na selva, ater-do-chão é o lugar perfeito para relaxar: você pode descansar nas praias do rio pela manhã, comer vorazmente um peixe grelhado local de tarde e hospedar-se em muitas pousadas charmosas da área pela noite. As pessoas frequentemente chamam a Amazônia úmida e densa de “inferno verde”. Alter-do-chão é um paraíso dourado.

. Onde hospedar-se: Pousada Tupaiulandia (+55 93 3527 1157, sem site) não é caro, é pequeno e bonito, como todos os lugares em Alter-do-chão, mas com muita personalidade.

. Em tempo 1: Desejo um parabéns especial aos irmãos paraenses de Santarém, tal como o amigo e poeta Paulo Paixão.

. Em tempo 2: Quem quiser acessar a página do The Guardian com a matéria, basta clicar no link.